Dois pesos…

14/05/2012

É mesmo controversa – se não fosse trágica – a interpretação que o nosso egrégio Supremo Tribunal Federal tem dado à Constituição Federal atualmente.

Digo isso em relação à sua recente interpretação de dois direitos fundamentais.

O primeiro deles é o direito à vida.

A dignidade da pessoa humana, que na minha modesta opinião vale mais viva do que morta (porque como diz o poeta, “quando eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais”) é fundamento da República Federativa do Brasil.

O art. 5º, ainda, garante a todos a inviolabilidade do direito à vida, e é manifestamente proibida a pena de morte.

No entanto, ao apreciar a ADPF 54, ajuizada pela Confederação Nacional de Trabalhadores na Saúde, este e. Supremo Tribunal, vencidos os eminentes Ministros Ricardo Lewandowski e Cezar Peluso, entendeu que é possível excepcionar o direito à vida dos anencéfalos, por opção da mãe.

Entendeu a maioria dos Ministros que a vida de tais seres humanos tem menos valor que a vida dos demais . Entenderam que a mãe, nestes casos, pode optar por matar o filho mal formado, com a ajuda de profissionais da saúde (!) que ajuizaram referida medida para legalizar a espécie de aborto (que agora, disfarçadamente, é interrupção da gravidez, e não mais assassinato).

Excepciona, assim, nosso mais alto Tribunal, o direito à vida de um inocente (muito embora me pareça, com a devida vênia, que matéria tão complexa, para dizer o mínimo, devesse ser tratada pelos representantes do povo).

Pois bem.

Apreciando um habeas corpus aforado em favor de um homem barbado e bem formado (não de caráter, mas fisicamente, pois ao menos seu cérebro foi inteiramente constituído), que foi preso em flagrante com cinco quilos de cocaína e outros entorpecentes, o mesmo Supremo entendeu que seria hipótese de declarar a inconstitucionalidade de uma lei (esta sim feita pelos representantes do povo brasileiro, e que portanto espelha os desejos da maioria) que proibia indiscriminadamente a liberdade provisória a presos por tráfico de drogas.

Ora, havíamos decidido, na sociedade democrática, que aquele traficante de drogas, assim como todos os outros, que fosse preso em flagrante, não teria direito de responder ao processo em liberdade.

Isto foi aprovado pelos nossos Congressistas, e não ofende a Constituição, justamente porque é uma exceção à própria Constituição Federal.

A proibição de concessão de liberdade provisória evidentemente não significa a imposição de uma pena antecipada, senão o reconhecimento de que aquele cidadão, por sua periculosidade, e diante do momento em que vivemos na nossa sociedade, não pode responder solto ao processo.

Aquela lei, retirada do ordenamento por Suas Excelências, nada mais significava do que o clamor do povo brasileiro, reconhecido e positivado pelo legislador, no sentido de que lugar de traficante, pego pela polícia em flagrante, é na cadeia, sem direito de responder em liberdade. Se o flagrante é legal, xadrez nele. 

Não foi por acaso que nossos representantes promulgaram, democraticamente, aquela lei, mas porque nós, ao menos na nossa maioria, assim o queremos.

Mas Suas Excelências, os Ministros, entenderam que o direito de liberdade dos traficantes, neste caso, não pode ser excepcionado. Que o juiz poderá soltar os traficantes presos legalmente em flagrante, conforme o caso, muito embora contrariamente ao que decidiu o povo brasileiro democraticamente.

Mas o direito de vida do anencéfalo pode ser excepcionado. A morte é sentença que se lhe pode impor, de forma definitiva, e antes do nascimento.

Aos anencéfalos, pelo crime da má formação física, ainda que sem culpa, pena de morte. Aos traficantes, presos em flagrante, as ruas.

E viva a democracia!

 

 

 

As experiências que acumulei nestes já não tão poucos, mas bem vividos anos, me mostraram que não adianta o quanto eu tente controlar a vida, sempre haverá o que escapará ao meu controle. Tenho buscado aprender – e me orgulho de estar alcançando sucesso nesta empreitada – e a conviver com o incontrolável, e até a gostar das situações tais quais elas se apresentam. Deixando tudo acontecer como é para ser tenho visto o tanto, e o muito, que eu tenho sorte.

Mais uma prova disso tive essa semana.

Quarta feira passada surgiu uma viagem de última hora para São Luís do Maranhão no trabalho. Meu colega deveria vir já no dia seguinte, voltando na sexta, mas não pode por problemas pessoais. A viagem então caiu no meu colo! Ao saber que voltaria para Floripa na sexta, já concluí: final de semana nos Lençóis Maranhenses.

A expectativa da viagem trouxe consigo a lembrança da minha amada tia Nésia, que se foi nesse ano, mas que vinha muito ao Maranhão, porque meu tio era daqui (escrevo de São Luís). Sempre que conversava com ela sobre essa terra me surgia uma vontade imensa de conhecer os Lençóis, e por isso agora me senti abençoada por poder estar em contato com ela através dessa experiência.

Cheguei em São Luís na quinta para trabalhar com mais dois advogados – um daqui de São Luís e outro do Rio. Além do serviço, eles gentilmente me mostraram tudo que São Luís tem de melhor. Todas as histórias da cidade, os lugares, restaurantes, e as pessoas, enfim, o que seria possível conhecer num só dia.

Além disso, já me deram a dica de como chegar em Barreirinhas, a cidade dos Lençóis, e onde me hospedar. Fiquei no Porto Preguiças Resort, e recomendo. Além da melhor estrutura da cidade (com uma piscina inesquecível com jatos de hidromassagem na beira do rio), no hotel você consegue contratar todos os passeios, e eles têm as dicas dos melhores horários, os melhores guias, enfim, garantido que você não vai cair em nenhuma roubada.

É verdade que eu não fui para os Lençóis na melhor época do ano, que vai de maio até setembro; que a maioria das lagoas não estava cheia, mas ainda assim testemunhei um espetáculo da natureza.

O passeio aos Lençóis é feito em jipes: você atravessa um rio em uma balsa, depois é um caminho que mais parece uma montanha russa – legal para quem gosta de aventuras off Road – e aí, chegando nas dunas, mais uma caminhada até chegar nas lagoas.

Depois da imensidão de areia que se move no balanço dos ventos, que sopram sempre na mesma direção e criam esculturas geniais, você se depara com uma lagoa de água transparente onde peixinhos miúdos habitam tranquilamente.

Não sei se por inabilidade minha ou pela magnitude da natureza – mais provável que seja pela conjuntura dos fatores, mas nem minhas palavras, nem minhas fotografias, exprimem, e digo sinceramente, o que é a beleza desse lugar.

Como se tudo não fosse o bastante, o visitante ainda é premiado com o por do sol nas dunas. Uma bola de fogo se deitando sobre a imensidão de areia, e pintando de todas as cores aquela tela branca que se move incessantemente.

Depois daquela visão, fui embora em silêncio, porque não havia  nada mais a dizer.

Os amigos que eu fiz – e que foram pessoas da melhor qualidade – como sói acontecer comigo, onde quer que eu vá – também estavam na mesma condição: todos embasbacados.

Quietos, voltamos chacoalhando trilha adentro, lanhados pelo mato que insistia em mostrar que o território do parque é seu e de mais ninguém. Cheguei no hotel, banho, janta, e sono profundo.

Despertei com o cantar de um galo, e domingo de manhã era dia de passeio de barco a Caburé. Partimos de Barreirinhas em direção ao encontro do rio Preguiças com o Oceano Atlântico. Passamos por Vassouras – onde macacos prego vivem harmoniosamente com os visitantes; Mandacaru – a vila de pescadores com um lindo forte da Marinha; e no final do passeio paramos no restaurante Porto Buriti: de um lado rio, do outro mar; no meio uma pousadinha especial com restaurante. Ali passamos a tarde, tomamos cerveja, contamos nossas vidas, demos boas gargalhadas ao som de música brasileira ao vivo e de qualidade, uma tarde para rememorar. No final, um passeio de quadriciclo pelas areias da praia à foz do rio.

Nesse dia, enquanto o barco me carregava em direção ao mar, vento na cara e o sol me queimando a pele,  me lembrei do chacoalhar do dia anterior na caminhonete. Ao fim de alguns dias comigo mesma – como aliás gosto muito – algumas questões que me vinham martelando se desmancharam, desapareceram. É como se tudo passasse então a fazer algum sentido.

A imagem do barco correndo para o mar; do jipe percorrendo as trilhas de areias e mato; e ao me ver, a mim mesma, entre o céu e aquele infinito de areia, percebi que Vinicius tinha mesmo razão: que a vida só se dá pra quem se deu.

Um post só para as fotos dos Lençóis Maranhenses, porque eles merecem.

Castelos

11/12/2011

Fui para a praia sozinha, bem acompanhada do meu Javier Marías, e lá pelas tantas me deparo com o seguinte trecho:

(…) Consideraba una bendición, una suerte, que él callara desde aquella tarde, que no me solicitara, verme libre de sus pesquisas y capciosidades, de su olisqueo de la verdad, de encararme de nuevo con él, de no saber a qué atenerme ni cómo tratarlo ahora, de que me inspirara miedo y repulsa mezclados seguramente con atracción o con enamoramiento, porque estas dos últimas cosas no se suprimen de golpe y a voluntad, sino que tienden a demorarse como una convalecencia o como la propia enfermedad; la indignación no ayuda apenas, su impulso se agota en seguida, no se puede mantener su virulencia, o ésta viene y se va y cuando se va no deja huella, no es acumulativa, no mina nada y en cuanto se aplaca se olvida, como el frío una vez que se ha ido, o como la fiebre y el dolor. La corrección de los sentimientos es lenta, desperantemente gradual. Uno se instala en ellos y se hace muy difícil salirse, se adquiere el hábito de pensar en alguien con un pensamiento determinado y fijo – se adquiere también el de desearlo – y no se sabe renunciar a eso de la noche a la mañana, o durante meses y años, tan larga puede ser su adherencia. Y si lo que hay es decepción, entonces se la combate al principio contra toda verosimilitud, se la matiza, se la niega, se la intenta desterrar (…)”.

Levanto os olhos e um menino destrói, com um chute, o castelinho que passou a manhã quase toda construindo caprichosa e meticulosamente. Em segundos não havia mais nada: nem as janelas, a porta bem desenhada, o muro, os detalhes da arquitetura bem pensada. Nada. Tudo voltou  a ser só o que sempre foi: um monte de areia.

Ah! Quem dera se pudesse apagar ilusões como se derruba um castelo de areia…

Minhas bonecas.

30/11/2011

Eu nunca soube e nunca gostei de brincar de boneca. De correr, esconder e jogar bola sabia. Era craque em qualquer jogo, adorava competição em grupos, em duplas, corrida, patins, skate, dorminhoco, cartas, detetive – o que viesse. Mas casinha e boneca, não.

A minha avó cresceu no interior de Minas, sem bonecas, o que a tornou, na vida adulta, uma apaixonada por elas. A cada viagem me trazia uma boneca mais linda que a anterior, com uma roupa especialmente costurada, bordada, perfumada. As bonecas eram lindas e enchiam os seus olhos, mas não os meus. Elas nunca foram o meu forte, e para mim, a graça era cortar os cabelos, dar banho, riscar. Sem paciência, acabava com elas, e corria para a vida que me esperava lá fora.

As meninas do prédio costumavam reunir-se para fazer a casinha, e cada qual ficava responsável por um cômodo. Eu não gostava muito – na verdade odiava, mas quando não me restava nenhuma outra opção (leia-se, quando os meninos me enxotavam), eu me juntava a elas.

Tinha a cozinha, o banheiro, a sala, a piscina, o jardim, o quarto. Elas inventavam tantos cômodos quantos fossem necessários até que cada uma das presentes – e até eu – tivesse um.

Como eu não sabia brincar, elas deixavam que eu escolhesse primeiro meu cômodo para não ficar reclamando depois. Eu ficava perdida porque eles eram todos igualmente sem graça para mim. Então cada uma começava a me aconselhar na escolha que se aproximava:

- A cozinha! Você pode fazer uma comidinha, depois lavar a louça, limpar o chão, tem as panelinhas, os pratinhos.

- Não! A sala! Imagine que você receberá todas as outras amiguinhas, vocês podem jogar cartas e assistir televisão. Vocês podem fazer as unhas e contarem segredos umas para as outras…

- Ai que sem graça – interrompia alguém – eu gosto mesmo é da piscina. Você pode mergulhar, tomar suco, bronzear-se, jogar bola com suas amigas, é muito mais legal.

E eu ficava ali pensando como elas conseguiam imaginar tantas coisas para fazer com aquele monte de plástico que para mim não passava de um monte de bugiganga inútil.

Na verdade aquele faz de conta todo era muito sem graça, e eu me sentia mesmo diminuída porque a minha imaginação não conseguia alcançar a sua. Mentira: eu conseguia pensar numa boneca lavando louça, vendo televisão e tomando banho de piscina, mas não via diversão nenhuma nisso tudo, enquanto elas ficavam totalmente fascinadas por aquele mundo inexistente e quase todo cor de rosa que montávamos no salão de festas.

Eu cansava então de tentar optar pela melhor, porque eram todas iguais, e acabava escolhendo qualquer uma pelo cansaço, ou então porque convencida pela amiguinha que, de modo mais eloquente, me fazia acreditar que daquela vez eu iria sim me divertir:

- Tá bom! Fico com a piscina, pelo menos tem água pra jogar essas bonecas dentro! Lavar a louça, tomar café de mentira e limpar o chão nem pensar!

E lá ia eu, me arrastando, com as bonecas e os plásticos emprestados de alguém.

Daí que eu me sentava e observava todas as demais brincando. Elas, felizes, punham-se a montar suas casinhas, as bonecas ganhavam vida, enquanto a minha continuava ali, quase morrendo afogada, e eu, rezando para que o tempo passasse depressa.

Mas se eu era ruim na casinha, eu era boa de papo. E então, convencida de que o problema não estava comigo, mas sim na boneca e na parte da casa que me havia tocado, escolhia logo outro, e passava a lábia na amiguinha para que ela trocasse de lugar comigo.

O engraçado é que, ainda que estivesse achando a minha peça terrível, e não conseguisse encontrar nenhuma diversão naquele monte de tralha, era capaz de criar um bom discurso e convencer a amiguinha a trocar comigo de lugar:

- A piscina é mesmo a mais legal. Pena que vou ter que sair porque já estou aqui há muito tempo, estou ficando enrugada e acabei pegando sol demais sem protetor, mas se você quiser vir, você pode pedir para as suas amigas virem junto e uma passa o bronzeador na outra, é super divertido. E também tem uma boia, blá, blá, blá…

Talvez por pena, ou por vontade de fazer-me parar de tagarelar e voltar às bonecas, mas o certo é que eu sempre conseguia trocar.

Mas aí, a bugiganga alheia, que até então parecia a melhor, se tornava tão sem graça quanto a anterior, ou ainda pior, porque aí eu tinha mesmo a certeza de que o que a tornara assim fora a minha própria incompetência.

Pobres das bonecas que eu escolhia. Ao passarem às minhas mãos, deixavam de ser queridas, valorizadas, especiais, e além de tudo com uma vida de boneca super interessante, para tornarem-se meros pedaços de plásticos sem vida jogados num monte de plástico cor de rosa. E isso porque eu simplesmente não gostava delas.

Se dizem que as bonecas ganham vida durante à noite, em seus baús, tenho certeza que as das minhas amigas se reuniam para me maldizer, para torcer que eu ficasse doente, ou para que desistisse de me juntar às demais meninas, para que eu deixasse de machucar seu pobre coração de boneca (as minhas, coitadas, nem isso faziam, pois eram praticamente assassinadas no primeiro dia, quando eu as enfiava embaixo do chuveiro, acabava com os seus cabelos novinhos e destruía em cinco minutos o que algumas garotas conservam pela vida toda).

Mas não as condeno por me julgarem, me detestarem, e até me maldizerem. Se no seu lugar estivesse não sei se entenderia as razões que levam alguém a se esforçar verdadeiramente para tirar as bonecas de quem as tenha bem, sabendo que não as quer para, instantes depois, abandonar.

Isso acontecia quando eu tinha uns oito ou nove anos. Talvez a vida real, por trás da brincadeira, não fosse a de lavar, passar, mergulhar na piscina ou assistir televisão de mentira, mas sim identificar que eu não era uma menina de bonecas. A graça da infância é essa. Poder experimentar, errar, magoando bonecas e não pessoas.

A dor

28/11/2011

Amo essa dor me trouxe até aqui. Porque ela me moveu e me trouxe ao silêncio. E com o silêncio, as respostas às perguntas que nunca antes me fizera. Quando deixei de ser surda, consegui ouvir no silêncio o que há tanto tempo gritava dentro de mim, e então a dor passou. Aquilo que se supunha amor – escolhido como aquele que escolhe a sombra sem saber que o que deseja é o que ela reflete – apagou. Porque meus olhos estavam cegos e meu coração, míope. É como aquele que, enlouquecido para comer uma barra de chocolate, escolhe uma sobremesa de frutas com efeite de cacau. Ou o menino que, louco para viver perto da praia, se muda para Santa Catarina, e vai viver em Santo Amaro.

Agora só te agradeço pela dor que me causaste, e pelo alívio que me trouxeste: é que agora eu sei o que quero - minha barra de chocolate na praia mais linda de Floripa!

CANÇÃO, por Cecília Meireles (1939)

 

Pus meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

Era agosto e eu viajava de trem de Praga para Berlim. Na cabine do trem lotado íamos eu e mais cinco alemães: um casal de namorados e seus patins; dois amigos que jogavam qualquer coisa em um computador; e um senhor mais velho de terno.

Depois de um tempo de viagem eles começaram a conversar entre si, em alemão, e eu, sem entender uma palavra, sorria.

Confesso que não me sentia nada mal de não poder compartilhar a conversa daqueles desconhecidos, se tinha em minhas mãos a Cecília Meireles e ao alcance dos meus olhos uma das paisagens mais lindas que já pude desfrutar.

Mas lá pelas tantas, como se o assunto entre eles já houvesse se esgotado, um dos rapazes puxou papo comigo. Ao descobrir que eu vinha do Brasil e que viajava sozinha, a assistência, que a esta altura já não contava mais com o casal, também passou a participar da conversa.

Interessados em que eu conhecesse muito mais do que o guia que eu carregava comigo poderia indicar, e depois de passarem todas as dicas possíveis sobre Berlim – restaurantes, parques, baladas, e até outras cidades imperdíveis nas proximidades (o que seria impossível de cumprir nos dias que eu estaria na cidade e que gerou intensa discussão entre os três, que passaram então a listar quais seriam as minhas prioridades nos próximos dias), soltaram uma gargalhada quando souberam que eu me hospedaria num barco.

Mostrei-lhes as fotos do hostel, e animados com a novidade tupiniquim, cuja existência eles ignoravam totalmente, puseram-se os três a procurar a melhor maneira de chegar no tal barco.

E qual não foi a minha surpresa ao perceber que algo não ia bem: cada qual estava concentrado em seu smartphone, e nenhum deles conseguia encontrar o hotel no mapa. Ainda que estivessem verdadeiramente preocupados, sussurravam em alemão, disfarçando para não preocupar a desconhecida com a qual acabaram de cruzar. Sorriam-me um sorriso amarelo, querendo fazer-me acreditar que estava tudo sob controle.

Confesso que estava achando divertida a situação e cheguei a fingir por algum tempo que não entendia o que se passava, para não constrangê-los. Mas como nos aproximávamos da estação, e como precisasse mesmo encontrar o tal barco, houve um momento em que tive que contar que já havia entendido o que estava se passando, o que foi recebido com um certo alívio pelos alemães mal acostumados a mentir.

Mas a busca pelo endereço continuou até que um deles finalmente encontrou o barco (e nesse momento tenho mesmo que dizer que já estavam eles desconfiados da veracidade da minha história, e que estava virando questão de honra provar que o que eu havia dito era sim verdade!).

Acredito que ele teria gritado de emoção e me abraçado, se não fosse sua educação germânica que lhe impede de gestos súbitos e mais calorosos. Mas certamente o sorriso que dirigiu a mim e aos demais, e o suspiro aliviado, teve – em alemão – a mesma conotação. A má notícia, que veio logo em seguida – era que eu dificilmente conseguiria chegar lá pela primeira vez, e ademais sozinha, por transporte público.

Enfim chegamos na estação em Berlim, eu catei as indicações de cada um deles, sorri e me despedi. Sem beijos ou abraços, um tchauzinho de longe para cada um, como manda a boa educação germânica.

Fui embora, sozinha, admirada com aquela estação que costumo ver nos filmes, e que me parecia ainda maior ao vivo, quando então um deles vem correndo atrás de mim:

-  Te acompanho até o táxi e explico ao motorista como chegar. Você pode se perder, Berlim não é Florianápalis (um parênteses merecido aqui, porque é muito bonitinho a dificuldade que eles têm em pronunciar o nosso “ó”, que sai sempre “a”, em especial em Florianópolis, palavra que eu faço questão de sempre fazer-lhes repetir).

Ele fez mais do que isso. Entrou no táxi, arrumou o GPS, fez mil recomendações de cuidado comigo e partimos. Não me lembro o seu nome, mas é verdade que o que ele fez por mim eu não esquecerei.

E foi assim minha acolhida em Berlim. Quem diz que alemão é frio e distante, realmente não tem a mínima ideia do que está dizendo. Desde o primeiro momento a cidade me abraçou, me acarinhou, e é por isso que não a esqueço. Mas sigamos, literalmente.

Parti no táxi, feliz e aliviada. Estava onde queria estar, sã e salva, a caminho do meu barco. O caminho era longo, mas o destino era certo, e isso que importava. Não interessa o quanto se tenha que andar, desde que se saiba onde se quer chegar, não é isso?

Mais ou menos. Quando estávamos nas proximidades do local em que o barco supostamente estaria, ele não estava. E o pior: a estrada em que circulávamos sumiu do mapa.

Comecei a rir, e o taxista, preocupadíssimo, passou a entrar de terreno em terreno (lembrem-se, a essas alturas já não se podia falar “de casa em casa” pois estávamos longe do centro de Berlim, numa região desabitada), em busca de qualquer alma viva que conhecesse o meu barco. O senhor saía do carro, perguntava sobre o barco, mostrava fotos, e voltava triste. Mas não desanimava e me dizia:

- Não se preocupe, nós vamos achar.

Embora até pudesse, eu não estava preocupada, mas tranquila, e até gostando da situação que me é rara: a de deixar-me nas mãos do outro. Sem pode r fazer nada, não me restava outra alternativa que não confiar em alguém que, embora desconhecido, me inspirava total confiança. E eu permanecia ali, sentadinha, numa tarde de sol, esperando com paciência que ele chegasse no lugar que eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele chegaria.

A cada parada que fazia ele parava o taxímetro para não me cobrar “injustamente”. Eu não conseguia acreditar no que acontecia e, mesmo perdida, ficava cada vez mais satisfeita de estar num mundo com pessoas assim. O sorriso me era inevitável. Ele, coitado, tentava me tranquilizar por uma preocupação que era só sua.

Enfim encontramos o barco. Nos despedimos e o taxista custou a aceitar a gorjeta que eu lhe ofereci.

No hostel fui muito bem recebida pela namorado do capitão Tomás e sua amiga, pelos outros hóspedes, pelos cachorros e até pelas aranhas. O esquema era o seguinte: geladeira aberta, você consome o que quiser, e avisa no final da estadia – seja lá quanto tempo for (havia um americano que já estava no barco há alguns meses,  gostou e foi ficando – “até quando esfriar”).

Deixei minhas coisas no quarto, tomei um banho, e fui encontrar com meus amigos Yara e Felix, que também estavam em Berlim. Peguei um mapa do transporte público, umas dicas em alemão (porque ali não havia no momento ninguém que se comunicasse muito bem em outra língua), e fui. Um trem e dois metrôs depois e eu estava lá.

Como a história está ficando longa, pulo o que aconteceu durante o encontro. Vou direto pro depois.

Fazendo o caminho inverso, peguei os dois metrôs do retorno, fui até a estação em que eu deveria pegar o Tram 21 que me deixaria na frente do terreno em que o barco estava atracado. Tudo perfeito não fosse por um detalhe: quando cheguei na estação o último trem já havia partido.

Era noite e eu estava sozinha em Berlim, sem conhecer ninguém, sem falar alemão e sem saber para onde ir. A experiência anterior com táxi não havia sido das melhores, então havia uma certa dúvida em embarcar no primeiro carro que me aparecesse. Dúvida não é bem a palavra certa, pois eu já sabia que as chances de pegar um táxi sozinha àquela altura e ir parar num lugar que eu não sabia onde estava eram quase nulas.

Parei um casal e expliquei a situação. Ele até entendia inglês e falava pouco; ela só sorria. A primeira frase que ele soltou foi:

- Você é uma garota de sorte. Quase ninguém neste bairro fala inglês.

Foi só então que dei uma olhada no meu entorno, e de fato não me pareceu que estivesse no tipo do lugar em que as pessoas estão muito interessadas em aprender uma segunda língua. Ao menos não as que estavam na rua àquela hora.

Mas o fato é que ele tinha razão: eu tenho sorte, encontrei de novo as pessoas certas, e ele chamou um táxi, me pegou pela mão, me colocou dentro do carro, indicou o caminho para o motorista, colocou tudo certinho no GPS, e… nos perdemos.

Desta vez foi pior: nos perdemos e o motorista, ao contrário do primeiro, era sinistro. Ia para lugares cada vez mais abandonados, e o mapa do GPS apagou.

Quando me vi, estávamos numa rodovia, praticamente deserta. Não havia nenhum sinal do rio Spree, e portanto não seria ali que o meu barco estaria atracado. Pela primeira vez em todas estas idas e vindas de achados e perdidos senti medo. Muito medo.

Foi quando avistei um casal caminhando e pedi ao taxista que parasse para que pedíssemos informações. Com o carro ainda em movimento saltei do táxi, paguei a corrida (pra ser sincera joguei o dinheiro dentro do carro), e pedi ajuda.

Depois fiquei sabendo que os dois eram amigos, que tinham mais ou menos a minha idade, e que estavam recém saídos de uma festa, e também perdidos naquela região abandonada da cidade.

Quando lhes contei o que me passara foram gentis e me acalmaram. Caminhamos na madrugada de Berlim por quase duas horas. Na verdade foi mais. Era uma noite tranquila e de tempo ameno. Eu já estava calma novamente e nós conversamos sobre nossas vidas. Eu pude ver a cidade de um outro ângulo, muito mais bonita. Quando dei por mim estávamos margeando o Spree, atravessando pontes; nos sentamos no meio fio para descansar e contamos nossas histórias. Uma noite linda e inesquecível.

Algum tempo depois eu já estava novamente encorajada e peguei outro táxi (não sem antes meus novos amigos passarem um milhão de recomendações para o taxista em alemão – aliás, acho que é meio rotineiro essa história de recomendar o chofer, e eu passei e nem me sentir mais tão especial pela atenção dispensada). Mas enfim, este sim tinha o endereço atualizado e me trouxe diretamente, em poucos minutos e em segurança para o barco, que a estas alturas eu já estava determinada a abandonar.

Dormi chorando e acordei lembrando da experiência do dia anterior.

Fui tomar café e encontrei Tomás pela primeira vez, o capitão do barco, que ficou aturdido com o que se passara. Ele me deu seu celular e me disse que eu lhe telefonasse a qualquer hora que ele me buscaria – de moto ou de barco. E disse também que daquela parada de metrô que eu peguei o primeiro táxi eu poderia vir andando sozinha, que era seguro apesar de ser madrugada (o que acabei fazendo outras vezes, por preguiça de esperar o trem 21 passar).

Fui para o deck do barco e em poucos minutos já estava convencida a ficar. Não só porque o local era realmente espetacular, porque eu estava muito bem hospedada, mas porque eu devia àquele hostel uma das experiências mais inesquecíveis e tocantes da minha vida.

É com saudade que agora escrevo de pessoas que possivelmente nem saibam o quão importante foram e são na minha vida. É por elas – e por tantas outras que guardo na memória – que eu confio e acredito no ser humano. E é por esse primeiro dia que passei em Berlim que essa cidade, tão heterogênea, maluca, e linda, passou a ser a minha preferida no mundo.

Do Buteco do Edu

22/11/2011

E essa eu peço licença pro Edu pra copiar aqui porque, assim como ele, eu, se homem fosse, e se pudesse, também queria ser o Vinicius. E porque também frequentei, embora menos, e bem verdade que acompanhada, algum piano-bar do Rio de Janeiro para retornar para um passado que eu não vivi. 

Lindo post como, aliás, é de costume no www.butecodoedu.wordpress.com

O AMOR SÓ É BOM SE DOER, por Edu Goldberg

Eu, do alto dos meus 42 anos (e cada vez mais velho, e cada vez mais múmia, e cada vez mais distante do menino de calças curtas e camisa listrada de minha infância, minha infância cada vez mais velha, cada vez mais um quadro num museu imaginário…), posso dizer, sem medo do erro, que se sou um voraz leitor de Nelson Rodrigues (só leio Nelson Rodrigues, e nisso também o imito desbragadamente, ele que dizia, seguramente fazendo troça, que só lia Dostoiévski) sou um seguidor, na medida de minhas (parcas) possibilidades, do poeta-maior, Vinicius de Moraes (e não pretendo iniciar discussão alguma sobre se é, ou não, o velho Vina, nosso poeta maior).

Não me lembro, nem a fórceps, em que ano aconteceu o que vou lhes dizer… Mas estava eu, bem moço ainda (e ao escrever “bem moço ainda” sinto o ranger dos ossos do braço a indicar o avanço de minha idade), no Chico´s Bar, um piano-bar que havia na Lagoa, zona sul da cidade. Lá estava eu assistindo, sozinho, a um show da cantora (uma de nossas maiores cantoras!) Leny Andrade.

Eu fiz questão de frisar que estava sozinho porque à certa época eu achava que havia um certo charme nisso. Mais que isso, meus contemporâneos (e eu nem na faculdade estava, ainda estava cursando o segundo grau, e hoje nem se fala mais “segundo grau”…) não gostavam de bossa-nova, não gostavam da Leny Andrade (alguns, boçais, sequer sabiam quem era a portentosa Leny Andrade – e penso que, de tão boçais, ainda não sabem).

Lá estava eu – como vinha lhes dizendo.

Terminado um dos shows – eu fui a mais de um, mais de um! – encostei-me no balcão do Chico´s Bar e pedi uma dose de uísque. Eu achava – hoje acho mais – fabuloso beber uísque (imitava Vinícius, o copo cheio de gelo, uísque até a borda…), e lá fui eu beber uísque no final do espetáculo. Nesse específico dia a que me refiro, juntou-se a mim, no balcão, o baixista da banda – Jacaré.

Pausa: eu era olhado como uma espécie de mascote nesses lugares. O mais novo. E eu devia ter (seguramente tinha) olhos atentos demais (chamando a atenção), num misto de deslumbramento, medo, desejo de mergulhar na noite, sei lá (estou divagando demais, confesso).

Chegou-se ao balcão uma mulher. Eu – como fazia cenas, como fazia cenas (acho que até hoje as faço) – cantava “e por falar em saudade, onde anda você, onde andam seus olhos que a gente não vê…” e aquelas pessoas sequer sabiam (claro que sabiam!) que eu não tinha quilometragem rodada pra cantar aquilo daquele jeito, com aquela cara, com aquele peso… (rio, agora, de mim mesmo, lembrando com nitidez impressionante de tudo isso), bebendo o uísque como se bebesse o passado. Mais uma dose, mais outra dose, o Jacaré fazendo companhia, até que ele resolveu me apresentar à tal mulher. Gilda, ele disse. A última mulher do Vinícius. A cena fica um pouco confusa nesse momento (à rara falta de memória soma-se o fato, certo, de que eu devia estar ligeiramente embriagado…) e eu me lembro, apenas, que eles riam da situação, com um certo carinho que denotava zelo e uma ponta de admiração por aquele moleque (sim, ainda que com 18 anos de idade, eu era um moleque naquele ambiente sisudo do Chico´s Bar) brincando de gente grande.

Ela me chamou de Dudu, à certa altura. E eu disse – vão tomando nota do papelão! – que eu queria ser o Vinícius de Moraes. Lembro – disso com bastante clareza! – que alguém puxou Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes… O balcão estava apinhado de gente, as mesas ocupadas, fez-se o coro.

Eu, ali, cantava “… pergunte pro seu orixá, amor só é bom se doer, pergunte pro seu orixá, amor só é bom se doer…”.

Pensar nisso, lembrar disso mais de vinte e cinco anos depois, me faz rir – ligeiramente emocionado, confesso. Hoje, precisamente hoje, outubro de 2011, poucos meses depois de ver desaparecer a mulher com quem vivi, fusionado, por quase 12 anos, depois de lembrar o quanto amei até aqui (e falo do amor abrangente, não falo apenas do amor que por ela nutri, falo do amor pelas mulheres, do amor em estado bruto que move o homem, que move o mundo), sinto uma espécie de alegria por conta do dever até aqui cumprido.

Nunca – com a ênfase szegeriana! – abri mão de viver o amor da forma mais bruta – e sempre pude perceber que orixá estava certo, é infinitamente mais bonito quando dói. Nunca quis o mais-fácil em detrimento do mais-bonito, e é impressionante como até nisso a espiral da vida mantém coerência: o mais-bonito é sempre o mais-difícil, por isso o gozo é mais intenso. Nunca quis o superficial em detrimento do mais-fundo. Nunca quis não ser o homem que aquele garoto debruçado no balcão do Chico´s Bar sonhava ser – eu mesmo, do jeito que sou.

Hoje, embora mais só do que nunca – e ao mesmo tempo tão melhor, tão mais inteiro porque muito mais cioso de meus compromissos imemoriais – não me arrependo de rigorosamente nada. Nem do que está por vir – se é que me faço entender, eu que creio num moto contínuo que dói tanto quanto o amor.

Até.

Desde quando a memória me deixa lembrar, não consigo me ver sem uma caneta, uma folha de papel, e muitas lágrimas rolando; sempre escrevi. Escrever foi minha tábua de salvação quando achava que não conseguiria, escrevendo sobrevivi.

Escrever é minha forma de expressão, como ordeno a confusão interior que não raro em mim se instala. Escrever é o bálsamo que acalma minhas angústias, é a cachaça que me entorpece e que me encoraja a desabafar.

As palavras se desenham e afastam de mim todos os monstros que me aterrorizam, acelerando o relógio que custa a passar quando a ansiedade não raro me domina, fazendo-me escrava de pensamentos que parecem vindos de um buraco negro existente dentro de mim.

Ainda que escreva desde sempre, não tenho registros de nada. Escrever sempre foi orgânico, necessário, e íntimo, e por isso nunca fez sentido dividir. Na maioria das vezes logo que que o remédio fazia efeito e o alívio chegava, rasgava e jogava fora tudo o que havia escrito, como se assim tudo desaparecesse junto com o papel e a tinta usados.

Raras vezes – por vaidade, descrente de que eu houvera sido a autora das palavras em que não me reconhecia – escondi o que havia escrito para relê-lo em seguida, mas uma vez relido, e revivido o momento do desabafo, que não mais me pertencia,  o ritual se repetia: lixo. Mandar tudo embora – o papel, as palavras, as lágrimas nele derramadas, o sofrimento transcrito, a agonia – me trazia de volta para mim, para o presente, para a paz perseguida.

Não raro ainda escrevo algumas coisas e apago – e o faço quando não me sinto suficientemente à vontade para confessar, mesmo que para mim mesma, o que está no papel,  mas agora consigo escrever e apertar o publicar, e quando o faço, sinto como se me despisse para desconhecidos que não sei quem são, nem quantos, nem onde, nem quando.

E ao contrário do que acontece quando se tira uma peça de roupa, a nudez da publicação parece irreversível, sobretudo quando se faz pela internet. Impossível catar roupas jogadas pelo chão e, sair, arrependida, correndo por aí.

Mas depois disso passei a receber muitos votos de sucesso como “escritora”. Alguns passaram a me desejar que “quem sabe um dia” eu publicasse um livro de crônicas, talvez um romance.

Confesso, com o ego inflado, que agradeço imensamente o carinho e a gentileza dos amigos (verdade, quase todos os que elogiam são queridos amigos, familiares, em especial minha mãe, aquela que é minha maior fã desde que me matriculou no colégio e me garantiu que eu seria sempre a número um no que quer que eu fizesse), que me creem muito mais do que eu sou, mas de toda forma espero profundamente que isto não aconteça.

Escrever é traduzir em palavras todo o sofrimento e a angústia que trago dentro de mim. É reviver sentimentos que nem eu mesma sei porque existem e onde moram, mas que sem os quais não sou capaz de escrever. Escrever é sofrer, é doer.

Felicidade não me inspira porque escrever é o meu refúgio, minha fuga. Escrever é um lugar que encontro dentro de mim quando preciso sofrer o que estou sofrendo, sentir todos os machucados que a vida colocou em mim, para então voltar. Fujo para o papel para então retornar.

Escrever, quando estou feliz, é ainda mais sofrido, porque é abdicar da realidade de paz e alegria que me cerca em dado momento para mergulhar, novamente, em todas as agruras que um dia já me corroeram e que me trouxeram até onde estou, até o que sou. É renunciar um presente que eu luto para estar em troca de um passado do qual eu fujo ao escrever. Escrever em estado de felicidade é puro paradoxo. À felicidade eu não fujo, não escapo.

Desejem-me, pois, tudo, menos que eu seja escritora. Queiram, para mim, que eu consiga conservar o dom de escrever – bem ou mal, esteticamente – como um refúgio, mas ao virem que eu escrevo muito, ou até bem demais, desejem que passe logo…

Hoje acordei, no meio da noite, com vontade de escrever. Alguma coisa não vai bem. Que passe logo, mas enquanto isso, vou escrevendo.

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